PRIMEIRO CADERNO - 01/11/2009

Celular:12%daschamadasde3Gnãocompletam Pesquisa da Nielsen mostra áreas de sombra no Rio. No caso de 2G, há 34 locais em que há interrupção de ligação

Bruno Rosa

Usar um celular moderno de terceira geração (3G) com conexão à internet em alta velocidade no Rio de Janeiro ainda é um desafio para boa parte dos usuários. Cerca de 12% das ligações não chegam a ser completadas por falta de sinal. É o que revela pesquisa feita pela Nielsen Brasil. De acordo com a consultoria, a rede, que começou a ser implantada no início de 2008, sofre com as áreas de sombra e falhas de acesso em diferentes bairros. Já na rede 2G, que conta com 100% de cobertura, mais problemas. Entre as operadoras Vivo, Claro, TIM e Oi, foram detectados 34 pontos com queda de chamada e 71 localidades com telefonemas malsucedidos.

De acordo com a pesquisa, feita ao longo do último ano com veículos que medem a qualidade do serviço das operadoras, verificou-se que não há sinal 3G em grande parte das vias que dão acesso à cidade, como a Via Dutra, Avenida Brasil, as estradas em direção à Serra e à Região dos Lagos, além da Zona Portuária. Já em diferentes pontos das zonas Sul, Norte e Oeste, além da Baixada, o acesso deixa a desejar, com ligações de baixa qualidade.

— A geografia complicada do Rio, com muitos morros e uma grande orla, e uma rede de 3G ainda nova explicam as irregularidades.

No fim de 2008 metade das operadoras do Rio tinha um sinal 3G tão instável que não foi possível fazer a medição. Na 2G, a questão é investir em capacidade, pois a base de clientes está em crescimento — diz Thiago Moreira, gerente regional de produtos na Nielsen Telecom para a América Latina.

Demanda cresce e investimento em 3G cai O problema tende a se acentuar, com o aumento da demanda.

No Rio, pelos dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), eram 102,06 celulares para cada cem pessoas em setembro deste ano — mesmo nível constatado em São Paulo.

Há um ano, o número era de 91,61 para cada cem pessoas.

Segundo especialistas, a rede 3G representa cerca de 2,9% dos 166 milhões de celulares no país.

Para a consultoria Teleco, o Rio fica um pouco acima, mas não há dados específicos. Nos Estados Unidos, por exemplo, segundo estudo da Huawei, os aparelhos da terceira geração somam 30% da base de usuários. Em Portugal, o número chega a 45%.

Porém os investimentos em rede estão em queda este ano.

Em algumas operadoras houve redução no orçamento de até 40% devido à crise global, diz uma fonte que presta serviço ao setor. Os recursos destinados à rede 3G totalizam R$ 5 bilhões desde 2008 — do qual R$ 1,5 bilhão foi aplicado este ano, contabiliza a fonte: — O investimento em 3G está sendo menor este ano e devia ser maior. Muitas empresas passaram a ser seletivas quando o assunto é expansão. Na rede 2G, aconteceu a mesma coisa. Após um 2007 com forte crescimento da classe média, a rede congestionou, e as operadoras correram e investiram cerca de R$ 2,5 bilhões em 2008.

Procuradas, as empresas dizem que os investimentos são crescentes. Eduardo Tude, presidente da Teleco, lembra que o problema de cobertura só tende a aumentar, ainda mais com a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. A estimativa é que, em seis anos, o Brasil conte com 60 milhões de clientes 3G, prevê um estudo feito pela Huawei. Quem já sofreu com isso foi a arquiteta Cleia Maria Braga, que mora em Copacabana. No dia que o Rio foi anunciado como sede dos Jogos, seus três celulares ficaram sem sinal o dia todo.

— Tenho três celulares de uma mesma operadora. Um é moderno. Em várias ruas do bairro, quando tem linha, a qualidade é muito ruim. Quando o Rio foi escolhido, por ter muita gente no bairro, eu fiquei ilhada. Nada funcionava.

Liguei para o call center, a atendente, que não era do Rio, sugeriu que eu fosse ao quintal tentar ligar — lembra Cleia, reforçando que os prédios em Copacabana não têm quintal.

Além da Zona Sul, o Centro do Rio também está em situação delicada, diz a Nielsen.

— Às 18h no Centro do Rio é grande o número de ligações que caem — lembra Moreira.

Alexandre Fernandes, diretor de Marketing e Produtos da Huawei, revela que, no Centro e na Zona Sul, a demanda por dados é maior durante o dia, já que a maioria está em deslocamento.

No subúrbio, o pico é durante a noite.

Júlio Püschel, analista da Yankee Group, reforça a necessidade do aumento da capacidade via backhaul (espécie de ligação entre as rádios base e central de controle) e redes de fibra ótica.

Ele lembra que é comum as operadoras transferirem o uso da voz para a rede 2G quando a 3G não funciona, algo imperceptível para o usuário final.

— Transferir o tráfego de voz da rede 3G para a 2G mostra que a operadora ou não tem cobertura ou a célula está sobrecarregada — critica Püschel.

Hermano do Amaral Pinto, diretor de Estratégia e Desenvolvimento de Negócios para América Latina da Nokia Siemens, acredita a forte demanda pegou todas as operadoras de surpresa, já que a base de clientes prépago (cartão) responde por 80% do mercado. Segundo ele, as redes do Rio e e de São Paulo, por exemplo, teriam de aumentar sua capacidade em quatro vezes para terem um padrão considerado aceitável globalmente.

— O gargalo hoje é o link, que transmite o sinal das antenas (rádio base) para a central de controle, através do backhaul.

Depois, a comunicação entre essas centrais também precisa de mais investimentos, via backbone (rede principal que liga as centrais) — diz Amaral.

E isso se reflete nas reclamações da Anatel. De janeiro a setembro, 7,2% das queixas de telefonia móvel no Rio se referem a transmissão de dados. Para não serem punidas pela agência, as empresas têm controlado a entrada de novos clientes 3G. A TIM disse que está procurando vender menos em áreas com cobertura pouco satisfatória. O presidente da Claro, João Cox, em evento recente, disse que não faz mais campanhas publicitárias.

A Oi ainda não liberou a entrada de pré-pago na rede 3G.

Rio perde para Fortaleza, Balsas e Marabá Nem sempre cidade do interior é sinônimo de cobertura ruim. No levantamento feito pela Nielsen a pedido do GLOBO, o Rio de Janeiro aparece abaixo de três localidades no ranking de ligações com qualidade. Enquanto no Rio cerca de 85% das ligações foram consideradas boas, em Marabá (PA) o índice foi de 100%, seguido de Fortaleza (CE) com 96,64%, e de Balsas (MA), com 93,7%.

Para Eduardo Tude, presidente da Teleco, as empresas precisam investir em todo o país e cada região tem seu desafio: — A desculpa das empresas é que no Rio há muito morro, em São Paulo, são os prédios altos.

No interior, há outros problemas.

Tem que investir mais.

Hoje, 21% dos usuários levam em consideração a qualidade da rede para trocar de operadora, revela outra pesquisa da Nielsen feita com 9 mil pessoas. E 33% dos usuários não estão satisfeitos com quedas em ligações.

As empresas ainda estão definindo o orçamento para o próximo ano. Em 2010, a rede 3G é obrigatória em capitais e municípios com mais de 500 mil habitantes; e em 2011, em metade das cidades com mais de 200 mil habitantes