
Bruno Rosa
Usar um celular moderno de terceira geração (3G) com conexão à internet em alta velocidade no Rio de Janeiro ainda é um desafio para boa parte dos usuários. Cerca de 12% das ligações não chegam a ser completadas por falta de sinal. É o que revela pesquisa feita pela Nielsen Brasil. De acordo com a consultoria, a rede, que começou a ser implantada no início de 2008, sofre com as áreas de sombra e falhas de acesso em diferentes bairros. Já na rede 2G, que conta com 100% de cobertura, mais problemas. Entre as operadoras Vivo, Claro, TIM e Oi, foram detectados 34 pontos com queda de chamada e 71 localidades com telefonemas malsucedidos.
De acordo com a pesquisa, feita ao longo do último ano com veículos que medem a qualidade do serviço das operadoras, verificou-se que não há sinal 3G em grande parte das vias que dão acesso à cidade, como a Via Dutra, Avenida Brasil, as estradas em direção à Serra e à Região dos Lagos, além da Zona Portuária. Já em diferentes pontos das zonas Sul, Norte e Oeste, além da Baixada, o acesso deixa a desejar, com ligações de baixa qualidade.
— A geografia complicada do Rio, com muitos morros e uma grande orla, e uma rede de 3G ainda nova explicam as irregularidades.
No fim de 2008 metade das operadoras do Rio tinha um sinal 3G tão instável que não foi possível fazer a medição. Na 2G, a questão é investir em capacidade, pois a base de clientes está em crescimento — diz Thiago Moreira, gerente regional de produtos na Nielsen Telecom para a América Latina.
Demanda cresce e investimento em 3G cai O problema tende a se acentuar, com o aumento da demanda.
No Rio, pelos dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), eram 102,06 celulares para cada cem pessoas em setembro deste ano — mesmo nível constatado em São Paulo.
Há um ano, o número era de 91,61 para cada cem pessoas.
Segundo especialistas, a rede 3G representa cerca de 2,9% dos 166 milhões de celulares no país.
Para a consultoria Teleco, o Rio fica um pouco acima, mas não há dados específicos. Nos Estados Unidos, por exemplo, segundo estudo da Huawei, os aparelhos da terceira geração somam 30% da base de usuários. Em Portugal, o número chega a 45%.
Porém os investimentos em rede estão em queda este ano.
Em algumas operadoras houve redução no orçamento de até 40% devido à crise global, diz uma fonte que presta serviço ao setor. Os recursos destinados à rede 3G totalizam R$ 5 bilhões desde 2008 — do qual R$ 1,5 bilhão foi aplicado este ano, contabiliza a fonte: — O investimento em 3G está sendo menor este ano e devia ser maior. Muitas empresas passaram a ser seletivas quando o assunto é expansão. Na rede 2G, aconteceu a mesma coisa. Após um 2007 com forte crescimento da classe média, a rede congestionou, e as operadoras correram e investiram cerca de R$ 2,5 bilhões em 2008.
Procuradas, as empresas dizem que os investimentos são crescentes. Eduardo Tude, presidente da Teleco, lembra que o problema de cobertura só tende a aumentar, ainda mais com a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. A estimativa é que, em seis anos, o Brasil conte com 60 milhões de clientes 3G, prevê um estudo feito pela Huawei. Quem já sofreu com isso foi a arquiteta Cleia Maria Braga, que mora em Copacabana. No dia que o Rio foi anunciado como sede dos Jogos, seus três celulares ficaram sem sinal o dia todo.
— Tenho três celulares de uma mesma operadora. Um é moderno. Em várias ruas do bairro, quando tem linha, a qualidade é muito ruim. Quando o Rio foi escolhido, por ter muita gente no bairro, eu fiquei ilhada. Nada funcionava.
Liguei para o call center, a atendente, que não era do Rio, sugeriu que eu fosse ao quintal tentar ligar — lembra Cleia, reforçando que os prédios em Copacabana não têm quintal.
Além da Zona Sul, o Centro do Rio também está em situação delicada, diz a Nielsen.
— Às 18h no Centro do Rio é grande o número de ligações que caem — lembra Moreira.
Alexandre Fernandes, diretor de Marketing e Produtos da Huawei, revela que, no Centro e na Zona Sul, a demanda por dados é maior durante o dia, já que a maioria está em deslocamento.
No subúrbio, o pico é durante a noite.
Júlio Püschel, analista da Yankee Group, reforça a necessidade do aumento da capacidade via backhaul (espécie de ligação entre as rádios base e central de controle) e redes de fibra ótica.
Ele lembra que é comum as operadoras transferirem o uso da voz para a rede 2G quando a 3G não funciona, algo imperceptível para o usuário final.
— Transferir o tráfego de voz da rede 3G para a 2G mostra que a operadora ou não tem cobertura ou a célula está sobrecarregada — critica Püschel.
Hermano do Amaral Pinto, diretor de Estratégia e Desenvolvimento de Negócios para América Latina da Nokia Siemens, acredita a forte demanda pegou todas as operadoras de surpresa, já que a base de clientes prépago (cartão) responde por 80% do mercado. Segundo ele, as redes do Rio e e de São Paulo, por exemplo, teriam de aumentar sua capacidade em quatro vezes para terem um padrão considerado aceitável globalmente.
— O gargalo hoje é o link, que transmite o sinal das antenas (rádio base) para a central de controle, através do backhaul.
Depois, a comunicação entre essas centrais também precisa de mais investimentos, via backbone (rede principal que liga as centrais) — diz Amaral.
E isso se reflete nas reclamações da Anatel. De janeiro a setembro, 7,2% das queixas de telefonia móvel no Rio se referem a transmissão de dados. Para não serem punidas pela agência, as empresas têm controlado a entrada de novos clientes 3G. A TIM disse que está procurando vender menos em áreas com cobertura pouco satisfatória. O presidente da Claro, João Cox, em evento recente, disse que não faz mais campanhas publicitárias.
A Oi ainda não liberou a entrada de pré-pago na rede 3G.
Rio perde para Fortaleza, Balsas e Marabá Nem sempre cidade do interior é sinônimo de cobertura ruim. No levantamento feito pela Nielsen a pedido do GLOBO, o Rio de Janeiro aparece abaixo de três localidades no ranking de ligações com qualidade. Enquanto no Rio cerca de 85% das ligações foram consideradas boas, em Marabá (PA) o índice foi de 100%, seguido de Fortaleza (CE) com 96,64%, e de Balsas (MA), com 93,7%.
Para Eduardo Tude, presidente da Teleco, as empresas precisam investir em todo o país e cada região tem seu desafio: — A desculpa das empresas é que no Rio há muito morro, em São Paulo, são os prédios altos.
No interior, há outros problemas.
Tem que investir mais.
Hoje, 21% dos usuários levam em consideração a qualidade da rede para trocar de operadora, revela outra pesquisa da Nielsen feita com 9 mil pessoas. E 33% dos usuários não estão satisfeitos com quedas em ligações.
As empresas ainda estão definindo o orçamento para o próximo ano. Em 2010, a rede 3G é obrigatória em capitais e municípios com mais de 500 mil habitantes; e em 2011, em metade das cidades com mais de 200 mil habitantes